O Amor é a salvação do mundo!

Eu já acreditei que a organização dos estados e das sociedades seria capaz por si só de criar um mundo próspero, pacífico e feliz. Em algum momento da vida cheguei até a considerar a violência política e revolucionária um caminho legítimo para tornar nossa sociedade mais justa. No entanto, após anos de observação dos fatos contemporâneos e algum conhecimento da história da humanidade, reflexões obrigatórias me levaram à convicção resumida num verso de uma das minhas canções: “Só o Amor subverte tanta dor!” Essa frase veio em minha mente quando estava compondo a letra da música “Caverna da Lua de Saturno.” Era consequência de tudo que tinha escrito até aquela estrofe. Veio natural, lógica, num insight e de certa forma deu sentido à canção e, espero, aos restos dos meus dias aqui pelo planeta Terra.

Faz algum tempo venho pensando sobre essa questão e me aproximando da conclusão de que o Amor não é um mero sentimento como geralmente é tratado em textos, versos e prosas. É algo muito mais profundo, objetivo e fruto de um estado de consciência determinado. É capaz de impulsionar os seres humanos para modificarem e até superarem ideologias, sistemas políticos e sociais, conceitos, preconceitos, catástrofes, situações de miséria e muito mais. O Amor é fruto da inteligência, da razão e da compreensão de que somos seres integrados numa grande teia da vida que nos transforma em um único ente universal. O sofrimento, a felicidade, a luta pela sobrevivência de um é o sofrimento, a felicidade e a luta pela sobrevivência de todos. O Amor ao mesmo tempo que cria sentimentos, comportamentos e atitudes, também é ampliado por esses mesmos sentimentos, pensamentos e compreensões que se alimentam e se reforçam mutuamente. Tolerância, empatia, compaixão, carinho, respeito, solidariedade, generosidade, humildade e muito mais se retroalimentando e contagiando a mente, transformando olhos, bocas, pernas e braços em executores de ações dignificantes que visam fazer o bem para outras pessoas, outros seres vivos e todo o planeta que habitamos.

O problema é que o Amor, ao contrário da sua grandeza, sempre foi tratado pela maioria das pessoas como coisa de ingênuos, românticos, religiosos e místicos. Por isso, é vítima de grande preconceito já que boa parte da humanidade acredita que precisa de raiva, ódio e violência para ser temida e respeitada. No íntimo acredita que o Amor como prática de convivência é para os fracos e sonhadores! Mas, ao contrário de demonstração de fragilidade, amar é sobretudo um ato de extrema coragem daquelas pessoas que resolvem mudar o meio social, o ambiente e o mundo a partir de si mesmas. Enfrentando primordialmente seus próprios limites, seus comportamentos destrutivos, arrogâncias, individualismos e mesquinharias que se manifestam diariamente. Sofrendo ainda o desdém de muitas que convivem no meio familiar, profissional ou social. Quer experimentar? Chegue hoje falando de Amor ao seu local de trabalho.

Na verdade ainda não compreendemos de fato o que é o Amor. Precisamos evoluir nisso. Para tanto esse assunto precisa ser conversado, tratado, debatido pelas pessoas no cotidiano e estudado pelas nossas ciências. É hora de se desenvolver a teoria do Amor, sua didática e até a ideologia do Amor se esse termo couber. Todo ser humano parece ter a capacidade biológica ou espiritual de amar, assim como a possibilidade de desenvolvê-la. Talvez o Amor seja a mais importante lei da convivência e da sobrevivência de seres inteligentes que queiram construir uma civilização vitoriosa. Alguns dizem que é a força mais poderosa do Universo.

O fato é que o aprendizado do Amor não está desenvolvido em nosso mundo porque ao longo dos séculos acreditamos e agimos como se fosse uma virtude que só os bons e os “santos” trazem no coração. Há também os que o consideram um sentimento pueril, simplório e até medíocre. Mas o Amor é um estado de consciência elevado ou resultado disso, e mesmo assim não é exclusividade de seres superiores como muitos pensam. Os estados de consciência são plenamente alcançáveis por quaisquer pessoas através da reflexão, da oração, da meditação ou da auto programação mental. Amar é uma decisão e um objetivo! Decida amar, procure os meios e ferramentas que conseguirá!

Na verdade, ainda não entendemos a lição fundamental. A lição de que sendo o Amor algo muito além de sentimentos, pode ser ensinado, como dizia Mandela e como demonstrou especialmente Jesus Cristo, o grande Mestre do Amor com suas parábolas e sermões. Note-se que esse ser humano incrível não tratou o Amor como algo que surge espontaneamente ou que vem desde o nascimento da pessoa. Ele interveio aqui na Terra com o claro propósito de nos ensinar a amar. E o fez através das palavras da época e sobretudo com suas atitudes de humildade e de acolhimento, sendo firme quando preciso e perdoando a todos que o crucificaram. Com certeza Jesus sabia que íamos evoluir política, social e tecnologicamente e veio plantar uma ideia salvadora com o intuito de que em algum momento seja compreendida, desenvolvida e se torne a pedra angular da nossa civilização e conduza nossa vida em sociedade, nossas descobertas científicas, nossas ideologias e tudo que ainda criaremos em nosso mundo.

Talvez alguns achem que eu esteja vivendo uma espécie de loucura ou utopia, mas para mim é pura lucidez. É a razão predominando sobre emoções frágeis. Ou melhor, é a razão brigando contra elas diariamente. Repito, essa compreensão, para mim assim tão clara, vem com uma visão histórica e, principalmente, com a observação do cotidiano das pessoas, das famílias e das nossas vidas em comunidade. Vem com a certeza que até agora não acertamos o passo e que nossas “fórmulas” ideológicas da esquerda até a direita e de cima até em baixo não funcionaram como gostaríamos. Nossas religiões, entre contradições visíveis, perderam a capacidade de nos fazer evoluir espiritualmente; nossa tecnologia não nos libertou e nossos governos fracassam diariamente em promover justiça e bem estar social. E apesar do papel que cumprem, ainda, e da necessidade e da importância que têm, há algo que está faltando para que evoluam e funcionem adequadamente.

Devemos entender que as coisas não se desenvolvem a contento porque não sabemos, não compreendemos e nem conseguimos organizar sociedades mais justas e que contemplem a complexidade da existência humana sobre a Terra, suas relações intrínsecas e com as outras formas de vida e a natureza. Política, poder, ecologia, meio ambiente, consumo, conforto, sentimentos, emprego, diversidade, convicções, doenças, famílias, geografia, alimentação, povoação, conceitos, concepções religiosas, comportamentos, convivência… Nossas dificuldades em administrar tudo isso não são por sermos mal-intencionados, absolutamente. O que temos é incapacidade emocional, racional, científica, tecnológica, espiritual e material. Quem sabe um mega-hiper-super-computador com inteligência artificial resolvesse! Difícil também, não é?

Nesse emaranhado de problemas e situações o que poderia funcionar? O que estaria ao alcance de todos? Teorias, práticas e tecnologias são importantes, mas o que realmente é fundamental? O que seria capaz de dar um sentido pleno a tudo isso? De preencher cada ação, cada nova descoberta, cada iniciativa com tolerância, respeito, boa convivência, harmonia, paz e tantas outras questões? Amor é o ingrediente que falta. Ele é tão extraordinário que ao longo da nossa história, mesmo em épocas de guerra, sempre esteve ali, em menor ou maior grau amenizando e solucionando situações, vencendo dificuldades, regras impostas e preconceitos. Se o Amor predominasse no mundo teria evitado conflitos e diminuído o sofrimento causado por desastres naturais, calamidades e nossas limitações organizativas. A História mostrou que o Amor pode brilhar nas mentes e comunidades humanas em situações inóspitas, degradantes e inesperadas.

O Amor é compatível com todas as ideologias. Foram elas que se recusaram a tê-lo como inspirador de suas concepções e, ao contrário do que muitos pensam, não é antagônico com a organização do estado que deve cumprir seu papel na segurança, no combate ao crime e à corrupção, na educação, na saúde e na economia. Não se deve confundir Amor com omissão, perdão com impunidade, paz com ausência de conflitos e divergências. O Amor não atenua e nem mascara essas questões. Apenas é capaz de transformar tudo isso numa grande busca coletiva e em cooperação sincera por um mundo melhor.

Sim, há desafios. Como praticar o Amor em situações violentas em que sua própria vida corre perigo? Não é fácil, mas não é impossível. Realmente não dá para discutir ingenuamente o Amor com facções criminosas cheias de ódios, com seres humanos violentos, terroristas e assemelhados. Mas não se deve subestimar sua força moral como mostrou Gandhi na luta pacífica contra o Império Britânico. Nos casos de milhares de situações práticas, organizativas, enfrentando o crime organizado, o radicalismo político ou social, as leis e as regras devem prevalecer. As ações do Estado e de seus agentes, em nome da sociedade, devem ser duras se necessário. E isso não nega o Amor e a compaixão dos agentes da lei e das pessoas para com aqueles que venham a ser punidos pelos crimes que cometeram. “Quem ama, educa” deixou dito Içami Tiba. Isso não serve apenas para crianças. Serve para toda a humanidade.

Para sobreviver, o Amor precisa ser praticado à luz da realidade e do nosso nível de compreensão da vida. Só assim evoluirá e modificará a realidade, se tornando cada vez mais presente entre os seres humanos até se tornar a força mais importante da nossa civilização, aliviando os sofrimentos individuais, as dores familiares, sociais, políticas e as grandes dores do mundo e predominando nas relações entre os seres humanos e os outros seres vivos e a natureza. O Amor é a salvação do mundo!

Sérgio Taboada

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